Sobre o que este capítulo trata
O autismo em adultos não aparece na vida adulta.
Ele esteve presente o tempo todo. O que aparece é o esgotamento de uma vida inteira tentando se traduzir para um mundo que raramente fala a sua língua. A consulta de muitos pacientes adultos começa por isto: um diagnóstico errado de ansiedade ou depressão que nunca explicou totalmente o cansaço de existir.
Os critérios clássicos para identificar o Transtorno do Espectro Autista foram construídos sobre observações de meninos em idade escolar. O resultado, sentido até hoje na clínica, é uma geração de adultos invisíveis — em particular mulheres, pessoas com alto funcionamento intelectual e indivíduos que aprenderam cedo a camuflar suas diferenças. Receber o diagnóstico aos trinta, quarenta, cinquenta anos de idade é, para a maioria, menos um começo do que um retorno — a alguém que sempre se foi.
Este capítulo descreve a abordagem clínica que pratico para esses adultos: investigação cuidadosa, validação ética da experiência vivida, e construção conjunta de estratégias para a sobrecarga sensorial, social e executiva da vida cotidiana.
