Consciência e Autonomia
Fenômenos Hipnóticos na Prática: o que se pode sentir durante a hipnose clínica ericksoniana
Entenda o que pode acontecer durante a hipnose clínica: consciência participante, respostas involuntárias, sensações corporais, imagens e tempo subjetivo.
Resposta direta
Existe um medo comum em torno da hipnose: o de que entrar em transe signifique apagar, perder o controle ou deixar de saber o que está acontecendo. Só que talvez o ponto mais interessante seja justamente o contrário. A pessoa pode continuar presente e, ainda assim, perceber que nem toda resposta precisa ser construída pela força da vontade.
Na Hipnose Clínica Ericksoniana, compreendo o transe como uma reorganização da atenção em que a pessoa pode permanecer consciente e participante enquanto imagens, sensações, associações e respostas corporais surgem com menor comando deliberado. Esses fenômenos variam de pessoa para pessoa e não dependem necessariamente de sono, imobilidade ou relaxamento uniforme (Bányai, 2018; Landry et al., 2017).
Nota editorial: este artigo integra literatura científica, tradição clínica ericksoniana e material clínico composto, generalizado e desidentificado, utilizado apenas para aprofundar a descrição fenomenológica. O texto não corresponde a uma pessoa ou atendimento específico.
I · Se continuo consciente, como sei que alguma coisa aconteceu?Capítulos
Se continuo consciente, como sei que alguma coisa aconteceu?
Quando alguém pergunta se vai apagar durante a hipnose, o medo nem sempre é do sono. A pergunta pode ser outra: “Eu continuo sabendo o que está acontecendo comigo?”, “Posso abrir os olhos?”, “Consigo parar?”, “Vou dizer alguma coisa contra a minha vontade?”.
No fundo, o medo de apagar costuma carregar o medo de perder autoria sobre a própria experiência.
Esse é o primeiro ponto que precisa ficar claro. A pessoa pode ouvir a condução, reconhecer o ambiente e acompanhar pensamentos enquanto a atenção se volta mais para dentro. Pode falar, ajustar o corpo, pedir uma pausa ou abrir os olhos. A experiência clínica não precisa retirar essas possibilidades para que exista transe. A discussão mais ampla sobre o medo de perder o controle durante a hipnose merece um texto próprio; aqui, ela serve como porta de entrada para uma pergunta mais delicada: o que muda quando a pessoa continua presente?
Ouvir tudo não demonstra que “não entrou”. Talvez demonstre apenas que a expectativa estava errada.
A cultura popular ensinou muita gente a procurar uma ruptura dramática: antes a pessoa estava acordada; depois deveria desaparecer. Só que a experiência pode acontecer de forma gradual. A respiração encontra outro ritmo. Um pensamento perde urgência. O corpo se apoia de maneira diferente. Uma imagem aparece. O tempo parece mais curto ou mais amplo. A pessoa continua presente e, justamente porque continua presente, consegue perceber a diferença.
A pesquisa contemporânea ajuda a sustentar essa leitura dimensional. Alerta, atenção ao ambiente, absorção, memória posterior e agência se relacionam, mas não são a mesma coisa. A hipnose também pode ocorrer em estado ativo-alerta, com movimento e participação, sem sono ou relaxamento uniforme (Bányai, 2018; Landry et al., 2017).
Isso muda bastante a pergunta. Em vez de “eu apaguei o suficiente?”, talvez seja mais útil perguntar: “o que ficou diferente na maneira como eu estava prestando atenção?”.
Você não precisa desaparecer para experimentar outra maneira de estar presente.
A mente que tenta fazer a hipnose corretamente
Tem uma diferença aqui que vale observar.
Curiosidade acompanha. Cobrança aperta.
Uma pessoa muito vigilante pode transformar a experiência numa avaliação. Escuta cada palavra procurando uma instrução escondida, verifica se os braços estão pesando, confere se a respiração está correta e pergunta internamente se já deveria estar “mais fundo”. Quanto mais tenta provar que o transe está acontecendo, mais mantém a atenção ocupada em fiscalizar.
Isso, por si só, não demonstra incapacidade para hipnose. Pode funcionar como uma estratégia de proteção baseada em previsão, compreensão e revisão. A mente consciente quer saber o que vem depois e tenta diminuir a incerteza administrando cada detalhe.
Não é necessário guerrear contra essa parte. A condução pode utilizá-la. A mente continua curiosa, mas deixa de receber a tarefa impossível de administrar cada detalhe.
A pergunta “por que não está funcionando?” pode ser substituída por outra: “o que está acontecendo agora, ainda que seja pequeno e diferente do que eu esperava?”. Às vezes a mudança não está numa imagem marcante. Está no intervalo um pouco maior entre dois pensamentos, na mandíbula que soltou antes de a pessoa perceber ou na possibilidade de permanecer com uma sensação sem precisar corrigi-la imediatamente.
O transe não precisa vencer a consciência. Pode reorganizar a maneira como a consciência participa.
Quando a pessoa tenta repetir uma experiência anterior
Uma pessoa pode ter vivido imagens muito nítidas numa experiência e, na sessão seguinte, tentar fazê-las voltar. Sem perceber, começa a comparar o que acontece agora com aquilo que aprendeu a reconhecer como transe. A mente fica procurando a experiência antiga enquanto a experiência presente acontece de outro jeito.
Se as mesmas imagens não aparecem, surge a conclusão: “desta vez não funcionou”.
Mas uma sessão não tem obrigação de repetir outra. Um transe imagético não é mais verdadeiro do que um transe silencioso. Peso não é inferior a leveza. Acompanhar aproximadamente a passagem do tempo não invalida absorção. Cada encontro pode organizar a atenção de um modo diferente.
Talvez o fenômeno presente só possa ser reconhecido quando deixa de competir com uma prova passada.
Você não precisa reproduzir uma experiência anterior para que a experiência atual tenha valor.
Quando uma resposta parece acontecer sozinha
Uma resposta involuntária pode parecer ameaçadora quando é confundida com controle externo. Por isso, o ponto de partida continua sendo a agência: a resposta pertence à pessoa.
Ela pode escolher acompanhar a expiração e, depois, notar que os ombros se soltaram sem uma ordem separada. Pode apoiar melhor um braço e perceber peso, leveza ou estabilidade. Pode fechar os olhos e, em seguida, observar pequenas mudanças nas pálpebras, na mandíbula ou na posição da cabeça.
O fenômeno está na diferença entre iniciar deliberadamente uma condição e não precisar planejar toda a resposta que vem depois.
Isso não é tão estranho quanto parece. Ninguém comanda conscientemente cada batimento cardíaco, cada correção postural ou cada etapa necessária para adormecer. Reconhecer automatismos não diminui a pessoa. Pode ampliar a percepção de competências que já estavam presentes, embora não dependessem de uma ordem verbal para funcionar.
Movimentos musculares como resposta hipnótica
Talvez a primeira pergunta seja esta: quando um dedo se move, uma mão começa a subir ou um grupo muscular altera sua tensão, quem fez esse movimento?
Responder “foi a pessoa” é verdadeiro, mas ainda não explica tudo. Responder “foi o terapeuta” seria falso. O movimento pertence à pessoa, embora ela possa não ter construído conscientemente cada etapa da resposta. É nesse intervalo entre ideia, sugestão, expectativa e movimento que a resposta ideomotora se torna clinicamente interessante.
No referencial de Milton Erickson, movimentos desse tipo podem funcionar como sinais observáveis de responsividade e cooperação inconsciente. Levitação da mão, escrita automática e sinalização por pequenos movimentos foram estudadas e utilizadas como formas de comunicação dentro dessa tradição (Erickson, 1980). Isso é uma formulação teórica ericksoniana, não a afirmação de que todo movimento carregue uma mensagem escondida.
A pesquisa contemporânea examina o fenômeno por outros ângulos. Estudos relacionam certas respostas hipnóticas à experiência de menor esforço deliberado, a alterações na vivência de intenção e agência e a formas específicas de organização do movimento (Faerman et al., 2021; Lush et al., 2017; Santarcangelo et al., 2005).
Essas duas camadas podem conversar sem serem confundidas. A pesquisa atual sustenta mais diretamente esforço, intenção, agência e movimento. “Cooperação inconsciente” é a leitura clínica ericksoniana desse processo.
Um movimento casual continua podendo ser apenas um movimento casual. Não é necessário transformar cada contração em recado do inconsciente. O terapeuta observa contexto, sequência, relação com a sugestão e possibilidade de utilização clínica. Um sinal isolado não prova profundidade de transe, aprendizagem duradoura ou resultado terapêutico.
Em meus trabalhos sobre comunicação simbólica e fenômenos hipnóticos, discuti como gesto, palavra, sensação, imagem e relação podem participar de uma comunicação em múltiplos níveis, sempre preservando a singularidade e a autoria da pessoa (Santana, 2023a, 2023b).
E se o movimento não estiver retirando a sua autoria, mas mostrando uma forma de participação que você ainda não precisava comandar em palavras?
O corpo não precisa relaxar inteiro
“Relaxe” parece uma instrução simples. Para uma pessoa muito vigilante, pode se transformar numa tarefa impossível. Ela tenta relaxar tudo, confere se conseguiu e se frustra com cada região que ainda permanece tensa.
Talvez seja mais útil retirar a obrigação.
A pessoa pode apenas observar a respiração. Pode notar uma região mais tensa e outra menos tensa. Pode perceber que a mandíbula ainda segura enquanto os ombros já encontraram outro apoio. Relaxamento parcial continua sendo informação. Ausência de relaxamento também.
Hipnose não deve ser definida por relaxamento. Existem experiências hipnóticas com maior ativação, movimento e alerta. A hipnose ativa-alerta mostra de maneira clara que respostas hipnóticas podem ocorrer sem imobilidade e sem relaxamento uniforme (Bányai, 2018).
Algumas pessoas percebem peso, calor, leveza, formigamento, ajustes posturais ou mudanças na respiração. Outras não identificam nenhuma alteração corporal marcante. Não existe uma sensação obrigatória que funcione como certificado de transe.
Estudos psicofisiológicos encontram mudanças possíveis em respiração, atividade autonômica e outros indicadores, mas os resultados são heterogêneos. Nenhuma dessas medidas, isoladamente, constitui um marcador exclusivo de hipnose (Fernandez et al., 2022).
Desconforto não é troféu
Nem toda sensação durante o transe é terapêutica. Esforço ocular, posição corporal ou tentativa excessiva de seguir uma orientação podem produzir pressão e desconforto. Isso não precisa ser romantizado como sinal de aprofundamento.
A pessoa pode abrir os olhos, mudar de posição, comunicar o que sente e interromper a experiência. Dor, falta de ar, pressão ou desconforto persistente exigem avaliação apropriada. Hipnose não substitui diagnóstico diferencial médico.
Uma fronteira sobre analgesia
Pesquisas indicam que sugestões hipnóticas podem modular componentes da dor em determinados contextos, especialmente experimentais, agudos e procedurais. Isso não significa resposta uniforme, cura da causa da dor ou substituição do cuidado indicado (Noergaard et al., 2019; Rosendahl et al., 2023; Thompson et al., 2019; Yerzhan et al., 2025).
Quando sintomas corporais persistem fora do transe, a discussão é mais ampla e pode ser aprofundada no artigo sobre a função do sintoma e a experiência corporal.
Escutar o corpo não significa transformar toda sensação em sinal positivo. Também significa reconhecer limite, desconforto e necessidade de cuidado.
Imagens, absorção e passagem do tempo
Absorção não é ausência de consciência. A pessoa pode ficar muito envolvida numa imagem, numa sensação ou num silêncio enquanto algum grau de orientação permanece disponível. O que muda é a proporção da atenção: certos elementos internos ganham nitidez e o ambiente pode ficar temporariamente menos central.
O tempo subjetivo pode acompanhar essa mudança. Algumas pessoas sentem que o intervalo passou mais depressa. Outras percebem maior amplitude. Outras conservam uma noção aproximada do relógio. Nenhuma dessas respostas funciona como teste universal de profundidade.
A distorção temporal é um fenômeno relatado e documentado, mas não deve ser atribuída automaticamente a um estado hipnótico isolado. Atenção, expectativa, sugestão e características da própria situação também podem participar da experiência (Martin et al., 2016; von Kirchenheim & Persinger, 1991).
O mesmo vale para as imagens. Uma pessoa pode formar cenas nítidas. Outra percebe cores, fragmentos, espaço interno ou apenas sensações. Outra encontra silêncio. A ausência de imagens não invalida a experiência.
Uma imagem pode ajudar a organizar subjetivamente uma experiência, mas não é mensagem objetiva nem prova neurobiológica. Também não transforma uma lembrança em registro histórico exato.
Memória não é um arquivo perfeito
Hipnose não funciona como “soro da verdade”. A memória humana permanece reconstrutiva, inclusive durante e depois do transe. Vividez, emoção e convicção não garantem precisão histórica.
Lembranças e associações podem ajudar a pessoa a reencontrar experiências de competência, aprendizagem e significado. Isso é diferente de afirmar que o inconsciente guarda um arquivo perfeito do passado. Em contextos sugestivos, hipnose e imaginação guiada podem favorecer falsas recordações; por isso, lembrança evocada e fato corroborado precisam continuar sendo categorias diferentes (Kihlstrom, 1994; Krackow et al., 2025; Muschalla & Schönborn, 2021).
O valor clínico de uma imagem não depende de ela funcionar como fotografia. Pode estar naquilo que permite sentir, perguntar e elaborar no presente.
O que acontece depois do transe
O retorno não transforma o que aconteceu numa verdade incontestável. Ao final, costuma-se realizar uma reorientação gradual para o corpo e o ambiente. A pessoa pode abrir os olhos quando for adequado e conversar sobre o que percebeu.
Continua capaz de avaliar a experiência, discordar da interpretação do terapeuta e reconhecer as próprias expectativas. Não precisa atribuir significado imediato a toda imagem, nem usar uma mudança corporal ou uma surpresa com o tempo como comprovação de eficácia.
Essa preservação crítica faz parte do cuidado. A experiência pode ser interessante, intensa ou discreta. Pode fazer sentido naquele momento ou precisar de elaboração posterior. O passo a passo de como uma sessão é conduzida pertence a outra discussão; aqui, o ponto é que a pessoa retorna podendo pensar sobre o que viveu.
Talvez o transe não retire a pessoa do presente. Talvez mude a maneira como ela ocupa esse presente por alguns instantes.
Referências
Bányai, É. I. (2018). Active-alert hypnosis: History, research, and applications. American Journal of Clinical Hypnosis, 61(2), 88–107. https://doi.org/10.1080/00029157.2018.1496318
Erickson, M. H. (1980). The collected papers of Milton H. Erickson on hypnosis (E. L. Rossi, Ed.; Vols. 1–4). Irvington.
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Fernandez, A., Urwicz, L., Vuilleumier, P., & Berna, C. (2022). Impact of hypnosis on psychophysiological measures: A scoping literature review. American Journal of Clinical Hypnosis, 64(1), 36–52. https://doi.org/10.1080/00029157.2021.1873099
Kihlstrom, J. F. (1994). Hypnosis, delayed recall, and the principles of memory. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 42(4), 337–345. https://doi.org/10.1080/00207149408409363
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Lush, P., Caspar, E. A., Cleeremans, A., Haggard, P., Magalhães De Saldanha da Gama, P. A., & Dienes, Z. (2017). The power of suggestion: Posthypnotically induced changes in the temporal binding of intentional action outcomes. Psychological Science, 28(5), 661–669. https://doi.org/10.1177/0956797616687015
Martin, J.-R., Sackur, J., Anlló, H., Naish, P., & Dienes, Z. (2016). Perceiving time differences when you should not: Applying the El Greco fallacy to hypnotic time distortions. Frontiers in Psychology, 7, Article 1309. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2016.01309
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